quarta-feira, outubro 18, 2006

para todos os efeitos estou em www.kontraste.wordpress.com

Posted by João Ferreira Dias at 9:44 da manhã 0 inusitadas vozes

terça-feira, dezembro 27, 2005

A Palavra de 2005

Em meio a minha ressaca natalina, li Fuentes. E encontrei um texto que expressa de forma quase "estomacal" não somente o estado de um México oligárquico na primeira metade do século passado, mas também nos conta sobre a palavra de ordem aqui no Brasil e, julgo, em toda a América Latina. E não ontem: hoje, agora, já! Esta fora sem dúvida a palavra do ano de 2005.

Ah, ano que se acaba... quiçá se levasse consigo a palavra.

"Você a pronunciará: é a sua palavra: e a sua palavra é a minha; palavra de honra: palavra de homem: palavra de roda: palavra de moinho: imprecação, propósito, saudação, projeto de vida, filiação, lembrança, voz de desesperados, liberação dos pobres, ordem dos poderosos, convite à briga e ao trabalho, epígrafe do amor, sinal do nascimento, ameaça e deboche, verbo testemunha, companheiro da festa e da bebedeira, espada da coragem, trono da força, dente da adulação, brasão da raça, salva-vidas dos limites, resumo da história: palavra de ordem do México: sua palavra:

"- Sacaneie sua mãe.
"- Filho da sacanagem.
"- Aqui estamos nós, os sacaneados comuns.
"- Pare de sacanear.
"- Vou sacaneá-lo agora mesmo.
"- Vá nessa, probe-diabo sacaneado.
"- Não se deixe sacanear.
"- Sacaneei essa velha.
"- Sacaneei você.
"- Sacaneei o senhor.
"- Sacaneei bem sem ver a quem.
"- A ordem é sacanear.
"- Sacanei-o em mil pesos.
"- Sacaneiem, mesmo se chiarem.
"- As minhas são sacaneadinhas.
"- O chefe me sacaneou.
"- Não me sacaneie o dia.
"- Todos à sacanagem.
"- A sacanagem levou tudo.
"- Sacaneio-me, mas não me zango.
"- Sacanearam o índio.
"- Os guachupines nos sacanearam.
"- Os gringos me sacaneiam.
"- Viva o México, filhos da sacanagem.

"tristeza, madrugada, torrada, encardida, goiabada, dormir mal: filhos da palavra. Nascidos da sacanagem, mortos na sacanagem, vivos por pura sacanagem: ventre e mortalha, escondidos na sacanagem. Ela dá cara, ela reparte o baralho, ela joga com o acaso, ela veste a reticência e o jogo duplo, ela descobre a pendência e a coragem, ela embriaga, grita, sucumbe, vive em cada leito, preside o fausto da amizade, do ódio, do poder. Nossa palavra. Você e eu, membros dessa maçonaria: a ordem da sacanagem. Você é quem é porque soube ser sacana e não se deixou sacanear; você é quem é porque não soube ser sacana e se deixou sacanear; a corrente da sacanagem que aprisiona todos nós; elo acima, elo abaixo, unidos a todos os filhos da sacanagem que nos precederam e nos seguirão: herdará a sacanagem de cima; deixá-la de herança para baixo; você é filho dos filhos da sacanagem; será o pai de mais filhos da sacanagem: nossa palavra atrás de cada rosto, de cada sinal, de cada torpeza: boceta da sacanagem, pau da sacanagem, cu da sacanagem: a sacanagem manda em você, a sacanagem escarra em você, sacaneia a sacanagem, a sacanagem acaba com você, não terá mãe mas terá a sua sacanagem: com a sacanagem você tem como que uma mãe, é o seu bezerro, seu carnal, seu irmãozinho, sua velha, seu melhor-que-nada; a sacanagem: você arruína seu esqueleto com a sacanagem; sente-se pau para toda obra com a sacanagem, torna-se um peidorrento de marca maior com a sacanagem, sua pele se franze com a sacanagem, põe os sacanas adiante com a sacanagem: não se zangue com a sacanagem: você se pendura na teta da sacanagem:

"aonde vai com a sacanagem?

"oh mistério, oh engano, oh saudade: acredita que com ela chegará às origens? Não você: ninguém quer voltar à idade de ouro mentirosa, às origens sinistras, ao grunhido bestial, à luta pela carne de urso, na caverna e na pedreira, ao sacrifício e à loucura, ao terror sem nome da origem, ao fetiche imolado, ao medo do sol, medo da tempestade, medo do eclipse, medo do fogo, medo das máscaras, terror dos ídolos, medo da puberdade, medo da água, medo da fome, medo do desamparo, terror cósmico: sacanagem, pirâmide de negações, templo do espanto

"oh mistério, oh engano , oh miragem: acredita que com ela irá em frente, afirmar-se-á: para que futuro? Não você: ninguém quer andar carregado com a maldição, a suspeita, a frustração, o ressentimento, o ódio, a inveja, o rancor, o desprezo, a insegurança, a miséria, o abuso, o insulto, a intimidação, o falso orgulho, o machismo, a corrupção de sua sacanagem sacana: deixe-a no caminho, assassine-a com armas que não sejam as dela; vamos matá-la: matemos essa palavra que nos separa, nos petrifica, nos apodrece com seu veneno duplo de ídolo e cruz: que não seja nossa resposta nem nossa fatalidade:

"ore, enquanto o padre lhe lambuza os lábios, o nariz, as pálpebras, os braços, as pernas, o sexo com a extrema-unção; rogue: que não seja nossa resposta nem nossa fatalidade: a sacanagem, os filhos da sacanagem, a sacanagem que envenena o amor, dissolve a amizade, esmaga a ternura, a sacanagem que divide, a sacanagem que separa, a sacanagem que destrói, a sacanagem que envenena: o sexo eriçado de serpentes e metal da mãe de pedra, a sacanagem: o arroto bêbado do sacerdote na pirâmide, do senhor do trono, do hierarca na catedral: fumaça, Espanha, Anáhuac, fumaça, abonos da sacanagem, excrementos da sacanagem, planaltos, sacrifícios da sacanagem, honras da sacanagem, escravidões da sacanagem, templos da sacanagem, línguas da sacanagem: a quem sacaneará hoje para existir? a quem amanhã? a quem sacaneará; a quem usará?:os filhos da sacanagem são estes objetos, estes seres que você converterá em objetos de seu uso, seu prazer, sua dominação, seu desprezo, sua vitória, sua vida; o filho da sacanagem é uma coisa que você usa: melhor que nada.

"cansa-se
"não a vence
"escuta o murmúrio das outras orações que não escutam sua própria oração: que não seja nossa resposta nem nossa fatalidade: lave-se da sacanagem:

"cansa-se
"não a vence
"carregou-a durante toda a sua vida: essa coisa:
"você é filho da sacanagem
"do ultraje que lavou ultrajando outros homens
"do esquecimento de que precisa para lembrar
"dessa corrente sem fim de nossa injustiça
"cansa-se
"cansa-me; vence-me; obriga-me a descer com você a esse inferno; quer lembrar-se de outras coisas, não disso: obriga-me a esquecer que as coisas serão, nunca que são, nunca que foram: vence-me com a sacanagem

"cansa-se
"descanse
"sonhe com sua inocência
"diga que tentou, que tentará: que um dia a violação pagar-lhe-á com a mesma moeda, devolver-lhe-á sua outra cara: quando quiser ultrajar como jovem o que deveria agradecer como velho; o dia em que reparará em alguma coisa, no fim de algo: um dia em que amanhecerá - venço-o - e se verá no espelho e verá, por fim, que terá deixado algo para trás; lembrar-se-á: o primeiro dia sem juventude, primeiro dia de um novo tempo: fixa-o, você o fixará, como uma estátua, para poder vê-lo em círculo: afastará as cortinas para que entre essa brisa jovem; ah, como o encherá, como o fará esquecer esse cheiro de incenso, esse cheiro que o persegue, ah como o limpará: não lhe permitirá insinuar sequer a dúvida; não o conduzirá sequer ao longo dessa primeira dúvida."


Carlos Fuentes - Trecho de "A Morte de Artemio Cruz"

Posted by Ado, il Navigatore at 4:24 da tarde 2 inusitadas vozes

segunda-feira, dezembro 19, 2005

Provoquemos a dívida verdadeira

Amigos, provocar é bom, provocar faz bem a todos. Pois da provocação nasce a discussão, dela surgem as idéias, as revoluções e até os consensos. Provoco-vos aqui, democraticamente. Não intenciono ofender-vos, nem nada parecido, apenas provocar-vos, como um humilde amigo do além-mar interessado na opinião de todos.

Pois o que pensam os irmãos portugueses e demais amigos do inusitado sobre a dívida externa dos países de terceiro mundo? O que pensam sobre o extenuante superávit fiscal que precisamos atingir todo ano para o pagamento do juro financeiro de tal dívida, enquanto pessoas morrem de fome nos rincões desse novo continente (e de outros!) ainda por vezes esquecido?

Eis abaixo o que entendo ser uma maneira correta de pensar sobre estas questões. Ou ao menos de provocar.

É um texto já bem divulgado - e por tal peço desculpas se já fora antes motivo de discussões em blogs semelhantes - mas de qualquer forma, bom para provocações.


A Verdadeira Dívida

"Aqui estou eu, descendente dos que povoaram a America há 40 mil anos, para encontrar os que a encontraram só há 500 anos. O irmão europeu da aduana me pediu um papel escrito, um visto, para poder descobrir os que me descobriram. O irmão financista europeu me pede o pagamento, com juros, de uma dívida contraída por um Judas, a quem nunca autorizei que me vendesse. Outro irmão europeu me explica que toda dívida se paga com juros, mesmo que para isso sejam vendidos seres humanos e países inteiros sem pedir-lhes consentimento.

Eu também posso reclamar pagamento e juros. Consta no Arquivo das Indias que, somente entre os anos 1503 e 1660, chegaram a São Lucas de Barrameda 185 mil quilos de ouro e 16 milhões de quilos de prata provenientes da América. Terá sido isso um saque? Não acredito, porque seria pensar que os irmãos cristãos faltaram ao Sétimo Mandamento! Teria sido espolição? Guarda-me Tanatzin de me convencer que os europeus, como Caim, matam e negam o sangue do irmão. Teria sido genocídio? Isso seria dar crédito aos caluniadores, como Bartolomeu de Las Casas ou Arturo Uslar Pietri, que afirma que a arrancada do capitalismo e a atual civilização européia se devem à inundação de metais preciosos retirados das Américas!

Não, esses 185 mil quilos de ouro e 16 milhões de quilos de prata foram o primeiro de outros empréstimos amigáveis da América destinados ao desenvolvimento da Europa. O contrário disso seria presumir a existência de crimes de guerra, o que daria direito a exigir não apenas a devolução, mas indenização por perdas e danos. Prefiro pensar na hipótese menos ofensiva. Tão fabulosa exportação de capitais não foi mais do que o início de um plano "MARSHALLTEZUMA", para garantir a reconstrução da Europa arruinada por suas deploráveis guerras contra os muçulmanos, criadores da álgebra, da poligamia, do banho diário e outras conquistas da civilização.

Para celebrar o quinto centenário desse empréstimo, poderemos perguntar: Os irmãos europeus fizeram uso racional, responsável ou pelo menos produtivo desses fundos? Não. No aspecto estratégico, dilapidaram nas batalhas de Lepanto, em navios invencíveis, em Terceiros Reichs e outras formas de extermínio mútuo, sem um outro destino a não ser terminar ocupados pelas tropas estrangeira da OTAN, como no Panamá, mas sem Canal. No aspecto financeiro foram incapazes, depois de uma moratória de 500 anos, tanto de amortizar o capital e seus juros, quanto independerem das rendas líquidas, as matérias-primas e a energia barata que lhes exporta e provê todo o Terceiro Mundo.

Este quadro corrobora a afirmação de Milton Friedman, segundo a qual uma economia subsidiada jamais pode funcionar, e nos obriga a reclamar-lhes, para o seu próprio bem, o pagamento do capital e dos juros que, tão generosamente temos demorado todos estes séculos em cobrar. Ao dizer isto, esclarecemos que nao nos rebaixaremos a cobrar, de nossos irmãos europeus, as mesmas vis e sanguinárias taxas de 20% e ate 30% de juros que os irmãos europeus cobram aos povos do Terceiro Mundo. Limitaremo-nos a exigir a devolução dos metais preciosos, acrescida de um módico juro fixo de 10%, acumulado apenas durante os ultimos 300 anos, com 200 anos de graça.

Sobre esta base, e aplicando a formula européia de juros compostos mensais, informamos aos descobridores que eles nos devem um numero para cuja expressão total seriam precisos mais de 300 cifras, e, que supera amplamente o peso total do planeta Terra. Muito peso em ouro e prata... quanto pesariam calculados em sangue?

Admitir que a Europa, em meio milênio, não conseguiu gerar riquezas suficientes para pagar esses módicos juros, seria como admitir seu absoluto fracasso financeiro e a demencial irracionalidade dos conceitos capitalistas. Tais questões metafísicas, desde já, não inquietam a nós, índios americanos. Porém exigimos a assinatura de uma carta de intenções que discipline aos povos devedores do Velho Continente e que os obrigue a cumpri-la, sob pena de uma privatização ou conversão, de forma que lhes permita entregar a Europa inteira, como primeira prestação dessa dívida histórica."

Discurso, supostamente proferido em 2002 durante uma reunião de chefes da comunidade européia em Madri pelo, também suposto, cacique venezuelano Guaicaipuro Cuatémoc. Para mais sobre a autenticidade do texto, clique aqui. Entretanto, não é o fato de ter sido ou não pronunciado por um índio que importa neste contexto, mas apenas o discurso em si como ato de provocação.

Pois considerais-vos provocados!

Posted by Ado, il Navigatore at 5:22 da tarde 2 inusitadas vozes

sexta-feira, dezembro 16, 2005

Do Plano Tecnológico à Fixação em Cavaco

(imagem gentilmente cedida por José Chumbo)

O deputado socialista Carlos Zorrinho é já o terceiro coordenador para o Plano Tecnológico a ser nomeado pelo Governo. O seu antecessor, Miguel Lebre de Freitas, esteve em funções pouco menos de um mês.
Ora isto quer dizer que se uma Lebre não teve velocidade suficiente para implantar o plano tecnológico neste inusitado país, espera-se que um Zorro de capa lusa, seja capaz de resolver os problemas do progresso português.
Por seu lado Cavaco Silva afirma que "existe uma fixação doentia na sua pessoa".
É impressão minha ou ele é candidato a PR? Não é suposto que se fale dele, ou Cavaco pensava "caminhar sozinho entre as gentes"?
Inusitadamente Português
Guardião da Cidadela dos Incultos

Posted by João Ferreira Dias at 2:12 da tarde 3 inusitadas vozes

quarta-feira, dezembro 14, 2005

Eleições

Entendo que Portugal está passando pelos naturais distúrbios de uma época de eleições.

No próximo ano, teremos eleições presidenciais por aqui também.

Pois então, por cá a palhaçada também começou.

Veja só um exemplo de como se fazem eleições no Brasil. Em meados de novembro, o atual presidente (tradicionalmente um político de esquerda, mas seu governo teve discurso de centro e ações de direita) declarou publicamente que não iria tomar nenhuma medida "eleitoreira", nenhuma medida populista visando a re-eleição, como fizera seu arqui-rival, o presidente anterior (de direita - em discurso, tradição e postura - que fora re-eleito).

Certo... pois ei-las:

Novidade 1: O governo quer aumentar o salário mínimo.
Novidade 2: O governo quer corrigir a tabela do imposto de renda, cortando impostos.
Novidade 3: O governo quer encaixar 3,5 bilhões no orçamento para zerar as perdas salariais dos servidores públicos no seu governo.

Eu acho tudo muito bom. Acho tudo excelente. Mas... ora, convenhamos: agora? Só agora, no último mês do ano? Que coincidência, não?

Independentemente de sermos favoráveis ou contrários ao atual governo, todos devemos concordar: o governo por aqui é mentiroso até a raiz! Faz o que não diz, diz o que não faz; não diz quando faz, não faz quando diz.

Eu sou partidário da coerência: um político incoerente não pode ser levado a sério. Tal classe deveria já estar extinta na "terra-brasilis". Pois todos os nossos problemas históricos derivam do partidariasmo doentio decorrente desta incoerência.

Retrospectiva do governo Lula: política econômica firme de direita, algumas boas medidas, outras desastrosas e muita corrupção, como todos os outros governos. Mas com um importante diferencial: este governo cantou de galo e piou feito pinto.

Por mim, que volte ao seu galinheiro longe do planalto.

Posted by Ado, il Navigatore at 2:20 da tarde 4 inusitadas vozes

terça-feira, dezembro 13, 2005

O País dos Marretas

Este Portugal agreste é um país de marretas. Uns são candidatos políticos outros estão nas repartições públicas, todos a fazerem-nos de parvos. Sim, porque eles são marretas mas não são parvos, parvos somos todos nós que temos de levar com eles.

Como querem que este país ande para a frente se os marretas estão no poder e o povo é que faz de jograis?

Posted by João Ferreira Dias at 10:27 da tarde 0 inusitadas vozes

Tempo de Natal no país tropical

Vamos a uma olhadela no Brasil.

Em tempo de Natal, compras no paraíso da ilegalidade fiscal.

São Paulo, a maior cidade da América Latina, possui também o maior centro de contrabando da mesma América.

As lojas da região da rua 25 de Março, no centro de São Paulo, são consideradas um retrato da ilegalidade e da corrupção do país. Diariamente, 500 mil pessoas - eu disse diariamente, 500 mil!!! - passam pelas 350 lojas de rua e pelos 3.000 boxes das galerias e dos shoppings da região, alimentando a pirataria e o contrabando. Dos produtos lá vendidos, 90% são falsificados ou ilegais

Na véspera do último feriado, dia 14 de novembro, a estimativa é que 1 milhão de pessoas tenha circulado pelas lojas da região. Se cada uma tivesse gasto R$ 10, em um só dia os lojistas teriam faturado R$ 10 milhões. Estima-se desta forma que as lojas da região faturem R$ 10 bilhões por ano (1R$ é aproximadamente 0,45 U$, portanto um faturamento anual de U$4,5 bilhões).

Lá se compra de tudo: confecções, bijuterias, brinquedos e quinquilharias, máquinas fotográficas, DVDs, produtos de informática e eletroeletrônicos.

75% de todos os produtos, 90% dos eletro-eletrônicos, são de origem chinesa. Chineses e coreanos controlam um cartel de escravidão, onde imigrantes ilegais, principalmente bolivianos e peruanos, são mantidos em cativeiro para trabalharem de 12 a 14 horas por dia em troca de comida, na manufatura de roupas posteriormente vendidas nas lojas da rua, como em outras da cidade de São Paulo, a preços até 100% mais baratos do que no comércio formal.

Como indica a Folha, fiscais admitem que a repressão ao comércio ilegal na região da rua 25 de Março é difícil de ser realizada, basicamente por três motivos: 1) o esquema de chegada e de distribuição dos produtos é bem protegido; 2) proibir esse comércio é uma ação perigosa; 3) a represália só pode ser executada em parceria entre servidores de órgãos públicos e policiais.

Os discursos das autoridades da cidade e do país são todos em uníssono: a culpa é do consumidor que precisa de ter consciência de que comprar produtos ilegais é nocivo para o país.

Certo. A culpa é do consumidor. Pois é só isso, então? Mas que discurso inusitado! Por aqui temos a maior carga tributária do mundo! E para quê? Para viajar, pagamos pedágio; pela segurança, pagamos taxa de segurança; para a saúde, só mesmo com planos privados; para a educação, nas grandes cidades foge-se de colégios públicos; para o transporte, os preços são abusivos e a qualidade abaixo da média. O que fazem com nosso dinheiro? Onde vai todo esse imposto pago no Brasil? Se não se necessita de tantos impostos - porque tudo está privatizado - reduzam tal abusiva carga e incentivem às pequenas empresas: verão a concorrência da formalidade incentivada, com a informalidade combatida, e em pouco tempo não haverá espaço para chineses criminosos sem ser em seus próprios cativeiros.

Mas não! Eles não pensam assim: olham de cima de seus cargos corruptos para nós aqui embaixo e nos vêem tão corruptos como eles. A culpa é do povo. Como sempre, no Brasil, a culpa é do povo. É por tal que temos uma população inerte: não se reclama, não se revolta, não se exigem os direitos. Afinal, lutar contra quem? Contra si mesmos?

Certo. Muito bem... mais uma estratégia de poder: condenemos a população brasileira a assumir a culpa pelos chineses e coreanos em seus cartéis de escravidão. Somos todos culpados.

Pois, que nos cortem a cabeça de uma vez!

Posted by Ado, il Navigatore at 2:03 da tarde 3 inusitadas vozes

sexta-feira, dezembro 09, 2005

Portugal e China de braços dados

Começo por falar de um assunto que me faz aquecer o sangue nas veias e dizer o que digo no Convento da Crítica: não gosto de Portugal mas da ideia que é Portugal.
Deixa-me de candeias às avessas este nosso governo cada dia mais desleixado e incompetente, que agora resolveu fazer-se de aliado de um país que só falta conquistar-nos formalmente, sim porque não oficialmente é bom que se repare que "eles andam aí". Em cada esquina deste inusitado país se vê uma loja dos chineses, mais tarde ou mais cedo Lisboa torna-se uma Chinatown, se bem que o Martim Moniz e o Centro Comercial Mouraria já são território dessas criaturas de olhos em bico.
E a indústria portuguesa morre dia após dia com a entrada dos têxteis chineses, esses produtos de fraca qualidade que não duram nada mas que as mulheres portuguesas tanto gostam. Ai que lindas que elas ficam todas iguais! É a roupa dada pela Santa Casa da Misericórdia?
E onde está a preocupação pelas causas humanitárias agora? Num país em que quem trabalha são as crianças, isso não é exploração infantil? Num país em que os trabalhadores não têm dia de descanso e recebem uma amostra de ordenado, isso não é exploração humana?
E a economia europeia não é uma vítima deste país do oriente?
Vamos a ter mão nisto!

Posted by João Ferreira Dias at 9:55 da tarde 9 inusitadas vozes

O Ovo e a Galinha

Hoje é um dia inusitado para se começar. Pois é 9 de dezembro.

Sentado ontem em frente à televisão, vi anunciarem em um canal público: "amanhã, nove de dezembro, é o dia mundial da corrupção".

Inusitado, não?

Nós brasileiros somos todos pós-graduados no assunto. Apenas a maioria ainda não tem o diploma formal: mas é só o que lhes falta. Conhecemos em detalhes todas as minúcias do processo. Os diplomados, estes até já classificaram as diversas formas de abordagem, enumeraram em artigos científicos os detalhes burocráticos que seguem ao contato corruptivo: como dizer, como pedir, como pagar, como sair. Há o catálogo de paraísos fiscais, o procedimento para abrir uma conta no Sri Lanka, os melhores lugares para morar com dinheiro público, os melhores lugares para fugir em situação de risco.

Mas o que se faz em um dia mundial desses? Em geral as pessoas comemoram, como é o caso do Natal, da Páscoa, do dia de Ações de Graças, até mesmo do dia das Bruxas. Ora, pois não seria o caso de se comemorar a corrupção? Não, ao menos não de forma declarada. Posso até imaginar, sem dificuldade, alguns personagens no meu Brasil, hoje, jantando com a família e brindando ao nove de dezembro: Maluf, Pita, cadê vocês? Gushiken, Silvinho, reservaram mesa? Collor, jantará em Miami? Em qualquer caso, não se pode, de forma alguma, assumir publicamente uma celebração dessas: iria de encontro direto a uma das regras do manual 71 do código de ética do corruptor brasileiro.

Minha sugestão, então, é que usemos de nosso infinito saber no assunto, e façamos, neste dia, um curso informativo. Sim! Como estes que geralmente surgem em datas festivas. O dia de aniversário da morte de Érico Veríssimo: oficinas e cursos sobre o autor e seus livros. O dia mundial da luta contra a Aids: propagandas na televisão, com mulheres colocando preservativos em bananas gigantes. Pois agora, o dia mundial da corrupção: um programa de TV, ou mesmo uma oficina pública, "Tirem suas dúvidas", "Mil coisas que gostariam de pedir mas nunca tiveram coragem de perguntar".

Poderíamos até aproveitar e usar do dia para entregar ao povo os merecidos diplomas de pós-graduação. E lá estaria a gente mais humilde, que vê tanta notícia na televisão, e não entende direito a terminologia. Pois deveria ser apenas um curso de nomes e seus significados: é a disciplina que falta para completar o saber. Afinal, a nós, a lógica corruptiva não necessita de ser ensinada. Somos todos pós-graduados informais, restando apenas o diploma. Se o posto de gasolina da esquina forma cartel com colegas para aumentar o preço do combustível, se o motorista multado não hesita em oferecer uma diversão de final de tarde ao policial, se o funcionário do banco gosta de forçar planos de capitalização guela a baixo de clientes necessitados de empréstimos, bastará que eles saibam a língua dos cargos públicos, para compreenderem todo o complicado processo corruptivo. Pois são todos corruptos, restando que percebam.

Então teríamos lá dentre nossas aulas corruptivas: "As diferenças entre caixa um, caixa dois e caixa três", "O que é uma liminar, como provocá-la de forma rápida e como cassá-la antes mesmo de ser concedida". "Fundos de pensão: o paraíso", "A compra de votos partidários: termos técnicos", "Comissão parlamentar de inquérito: entenda como uma CPI não funciona", "Quais as palavras que devem ser usadas numa convocação de depoimento e o quê elas significam", "O nome dos cargos de nossos amigos na polícia federal", "A terminologia da licitação pública", "Superfaturamento: riscos e exemplos de sucesso".

Creio que o curso procederia tranqüilamente. Porém, quedo-me a pensar: haveria talvez alguém, dentre os alunos, algum inocente vivente, um tanto atordoado pelas aulas, a perguntar: "ora, mas quê?". Haveria um único estudante do processo, que sentiria a si mesmo em posição deslocada da lógica natural das coisas? Porque a pergunta que necessita ser feita, aqui neste Brasil, em um dia mundial da corrupção, é única: "corrompemos porque somos corruptos, ou somos corruptos porque corrompemos?". Esta é a pergunta central, o eixo do problema, onde toda política de combate deveria ser baseada. A corrupção é tão disseminada em nosso país porque o nosso povo atua no dia-a-dia com esse jeito descansado de que "roubar um pouquinho não faz mal a ninguém", ou o povo atua desse jeito, assim brasileiro, porque segue o exemplo dos corruptores e corruptos maiores?

Então, será que alguém levantaria a questão, em um curso nacional sobre corrupção? Ainda menos: haveria um único e inocente cidadão brasileiro que, vendo as manchetes na televisão, as propagandas das aulas do dia mundial da corrupção, sentiria, consigo mesmo, algo estranho e inusitado? Como se não estivessem a encaixar as coisas em sua lógica, como se de alguma forma não fosse "certo" aquilo tudo?

Pois se houvesse ou não tal bravo desbravador, em qualquer um dos dois casos, teríamos por certo a resposta para a pergunta central. No dia mundial da corrupção, ao chamar o povo para receber o diploma da sua merecida pós-graduação formal, assim poderíamos então dizer, dependendo do comportamento dos alunos, se antes do ovo veio a galinha, ou se não foi bem esta a história do Brasil.

Posted by Ado, il Navigatore at 12:05 da tarde 2 inusitadas vozes